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NOTÍCIA
Conversão e Penitência em São Francisco de Assis
12/02/2016

 Caminho da Graça na Conversão de São Francisco de Assis

 

O caminho de conversão de Francisco provoca em nós mudanças e nos leva a um desequilíbrio. A pessoa que lê o testemunho de Francisco percebe o poder de Cristo que transforma e muda a alma humana. O segredo de São Francisco está em sua conversão. Somos desafiados a olhar Francisco e Clara como testemunhos vivos da conversão que o Espírito de Deus deseja operar em nossas vidas cotidianamente. É importante ler caminho da conversão de Francisco fazendo caminhos para a nossa própria conversão ao projeto de Deus.

 

1. A conversão é um ato da graça de Deus: Tomás de Celano evidencia a graça de Deus na vida de Francisco. Ele escreve: “Desde então esteve sobre ele a mão do Senhor e a destra do Altíssimo o transformou para que, por seu intermédio, fosse concedida aos pecadores a confiança na obtenção da graça e desse modo se tornasse um exemplo de conversão para Deus diante de todos”. Francisco se transformou em exemplo de conversão por intermédio unicamente da graça de Deus.

 

A luta que Francisco travou pela sua conversão foi possível pela ação da graça de Deus em sua vida, como diz a Legenda dos Três Companheiros “Desde então começou cada vez mais a desprezar-se, até conseguir, pela graça de Deus, a mais perfeita vitória sobre si mesmo”  “É na conversação com Deus, é na oração, que Francisco compreendeu de que coisa o seu tempo tinha necessidade: não andou a consultar nem doutos nem bibliotecas, mas lançou-se na perspectiva focal do mistério de Deus” Zavalloni.  

 

 

2. A conversão é um ato da graça de Deus que espera uma resposta humana: Francisco seguia um caminho de pecado. Tomás de Celano fala de sua vida mundana. Um homem que não tinha tempo para Deus e que gastava o dinheiro de seu pai sem responsabilidade. Pensava no imediatismo. Francisco foi educado para ser um jovem “mundano”. Celano diz que: “Nesses tristes princípios foi educado desde a infância”... Neles perdeu e consumiu miseravelmente o seu tempo quase até os vinte e cinco anos. “Todos o admiravam e ele procurava sobrepujar aos outros no fausto da vanglória, nos jogos, nos passatempos, nas risadas e nas conversas fúteis, nas canções e nas roupas delicadas e luxuosas”.  Deus foi sinalizando sua graça na vida de Francisco. Esta sinalização levou um bom tempo.

 

O período da prisão na Perúgia foi um período de encontro com as sinalizações da Graça na vida de Francisco. A voz que ouviu no caminho para a batalha ("Quem te pode ser melhor, o senhor ou o escravo?" Ele responde: "O senhor". A voz lhe replicou: "E então, por que abandonas o Senhor pelo escravo; o Príncipe pelo empregado?" Francisco responde: "Senhor, que queres que eu faça?” A voz tornou: "Volta para a tua cidade, para fazer o que o Senhor te vai revelar").

 

Foi um grito da graça na vida de Francisco. Todos estes sinais foram realizados esperando pacientemente a resposta humana de Francisco. Como responder? Procurando mais na Bíblia, na igreja e na liturgia. Dando as roupas e os tecidos do pai aos pobres. Beijando o mendigo e leproso. Reconstruindo capelas e igrejas. Amando a Igreja. Francisco em sua conversão como resposta à graça de Deus deu novos passos e descobriu novos caminhos.

 

Trabalhou diariamente sua conversão. Boaventura diz: “Como leal seguidor de Jesus crucificado, Francisco crucificou sua carne com suas paixões desde o início de sua conversão, impondo-se uma disciplina rigorosa...”. A conversão é um ato da graça de Deus que exige uma resposta humana. Francisco “como verdadeiro imitador e discípulo do Salvador, entregou-se, no princípio de sua conversão, com todo esforço, com todo desejo, com toda decisão a buscar, encontrar e preservar a santa pobreza, sem duvidar de adversidades, sem temer nada de sinistro, sem fugir a nenhum trabalho, sem escapar de nenhuma angústia do corpo”.

 

Quantos encontros Francisco teve com Deus? Muitos. Alguns foram registrados nas Fontes Biográficas e nos primeiros escritos. Vemos um homem penitente transformado pela graça e vivendo a realidade de Cristo. A experiência de Francisco foi unicamente com Cristo.

 

Francisco não confiava na força de sua vontade ou na carne. Por conhecer a própria fraqueza humana, buscava força na sua constante e progressiva experiência com Cristo através da oração. Boaventura diz que “a oração era também uma defesa ao se entregar à ação, pois persistindo nela, fugia de confiar em suas próprias capacidades, punha toda a sua confiança na bondade divina, lançando no Senhor os seus cuidados”.             

 

 

3. A conversão progressiva: Francisco não teve a totalidade de sua experiência no longo período de enfermidade. Também não conseguiu sua plena conversão construindo igrejas. Sua conversão foi um caminho. Caminho longo, de aprendizado, experiências e renúncias. Boaventura fala deste longo caminho de renúncia: “No início de sua conversão, com a coragem e o fervor do Espírito, chegou, em pleno inverno, a se lançar num fosso d'água gelada ou de neve para sufocar inteiramente o inimigo que cada qual traz em si e preservar dos ataques da volúpia a veste branca da inocência. Foi por essas práticas que começou a brilhar nele a bela pureza, o inteiro domínio que ele obteve sobre a carne. Parecia que tinha feito contrato com os olhos (cf. Jó 31,1): não só fugia a qualquer espetáculo que pudesse deleitar a carne, mas se recusava mesmo a olhar tudo o que apresentasse caráter de curiosidade ou de futilidade”.

 

Ele amava a Igreja, aprendia com a Igreja e através da Igreja teve suas experiências com Deus. Mas também, de forma solitária, buscou um crescimento em Cristo e teve várias de suas experiências diretas com Deus.

 

Sua conversão progressiva é trabalhada no silêncio e nos diversos retiros espirituais que exercia. Tomás de Celano dá um importante testemunho a este respeito: “Passado algum tempo nesse lugar (um lugar calmo, secreto e solitário para poder se entregar a Deus) e tendo conseguido, pela penitência, por uma oração contínua e uma contemplação frequente, uma inefável familiaridade com Deus, teve vontade de saber o que o Rei eterno mais queria ou podia querer dele. Buscava com afã e desejava com devoção saber de que modo, por que caminho e com que desejos poderia aderir com maior perfeição ao Senhor Deus segundo a inspiração e o beneplácito de sua vontade.

 

 

A conversão de Francisco trouxe provocações e reações imediatas sobre várias áreas:

 

 

a) Sobre a família: A Família de Francisco vivia da venda do comércio e do status. A lepra era conhecida como uma desgraça que causava exclusão total do indivíduo na relação até com a família. A conversão que levou Francisco a beijar um leproso trouxe angústia para a própria família. Além de prejudicar as vendas dos tecidos, rebaixar o status da família, também vinha o desconforto por ter um filho doente e excluído da sociedade e dos sonhos dos jovens. A conversão de Francisco causou prejuízo financeiro na empresa do pai. O fato de doar aos pobres os tecidos finos da loja do pai foi uma afronta provocadora aos projetos do mercado. Francisco abre mão da herança do pai terreno e ganha as heranças do pai celeste. Tomás de Celano testemunha que Francisco disse “na frente de muitas pessoas que se tinham ajuntado: "Agora poderei dizer livremente: Pai nosso, que estais nos céus. Pedro Bernardone já não é meu pai, e a ele devolvo tanto o dinheiro como a minha roupa toda. Irei nu para o Senhor".

 

b) Sobre a Igreja: Francisco teve a oportunidade de viver sua conversão nos caminhos tradicionais da igreja. Mas sua conversão, além de restaurar a Igreja, que estava em ruínas, também causou um abalo em bases estabelecidas. Todos os que viviam na fé de que a riqueza e a glória eram sinais de bênçãos foram criticados por sua conversão silenciosa. “Enquanto viveu neste vale de lágrimas, o santo pai desprezou as míseras riquezas dos filhos dos homens e, ambicionando a mais alta glória, dedicou-se de todo coração à pobreza”.  Pela graça de Deus, Francisco teve o apoio do papa Inocêncio III. [21] Sua conversão provocou a hierarquia da igreja. Não falou contra ela, apenas trilhou o caminho do Evangelho.

 

c) Sobre a sociedade de sua época Francisco estabeleceu em sua vida um caminho à margem de sua época. Sua conversão influenciou os grandes da sua época. Francisco viveu os valores do Reino de Deus de forma radical. Colocou o Evangelho de Cristo como meta em sua vida. Quis viver a radicalidade do amor e da fé evangélica mesmo contra os valores pregados pela sociedade.

 

d) Sobre o cristianismo: Atualmente existem muitos grupos franciscanos entre as igrejas protestantes.

Madre Schlink, da Irmandade Evangélica de Maria, em seu livro “O Mundo de São Francisco” escreve: “Em sua personalidade, seu caráter e sua vida descobri a mensagem do Evangelho: "Se não vos tornardes como crianças... Graças te dou, ó Pai, porque ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos, aos fracos e ignorantes..." O cativante coração infantil e humildade de Francisco de Assis, que se tornaram a fonte de todo poder e autoridade no seu ministério por Jesus, tocaram o meu coração. O ardente amor por Jesus, nascido do arrependimento, a estreita comunhão do coração com Jesus, que é a fonte de toda a alegria. Tudo isso eu podia ver na vida de São Francisco. Isso fortaleceu em mim o desejo de amar mais a Jesus. Dos resultados da vida e discipulado de São Francisco, percebi que somente o amor ardente por Jesus traz a solução para os problemas e dificuldades na Igreja e no mundo, como foi demonstrado em certo sentido na sua época”.

 

Conclusão: Um chamado à conversão

Irmã Joanne, na sua reflexão na Jornada Pedagógica em janeiro de 2015, nos convida a uma reflexão sobre alguns dos valores franciscanos em nível pessoal e o consequente reflexo nas práticas comunitárias. Só podemos dar aquilo que temos. Ela ressaltou a Paz, a Honestidade, a Integridade, a Reverência a todas as criaturas.

 

Até que ponto somos mensageiros(as) da Paz e do Bem que anunciamos, mais do que uma vez, todos os dias? Ser uma pessoa de paz é ter a paz dentro do coração. Até que ponto estou pronto(a) para perdoar? Reconciliar? Promover a não violência? A Honestidade exige que eu busque e proclame a verdade em todos os momentos. Muitas vezes nos sentimos donos(as) da verdade. Isso gera intolerância, superioridade e a falta de humildade nos relacionamentos.

 

A Reverência a todas as criaturas nos convoca a rever o nosso modo de tratar as pessoas e todas as criaturas. Somos responsáveis pelos recursos que nos foram e nos são confiados. A sustentabilidade do planeta está em nossas mãos. Desta forma, a exemplo de Francisco e Clara, somos constantemente convidados à conversão que se realiza na vida cotidiana por meio de gestos de reconciliação, do cuidado com os mais necessitados e do exercício em defesa da justiça e do direito. (Fragmentos do texto de Edson Cortasio Sardinha - Teólogo, Educador, Especialista em Ciências da Religião e em Liturgia e Artes Sacras.)

 

 

 

 

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Tomás de Celano PRIMEIRA VIDA DE SÃO FRANCISCO : L.1, C.1.

LEGENDA DOS TRÊS COMPANHEIROS : C.5. parágrafo 11- Fontes Franciscanas

Zavalloni, Roberto. Pedagogia Franciscana. Desenvolvimento e perspectivas.

Editora Vozes: Petrópolis RJ, 1999. pg 131.

 

 

 

 

 


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