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NOTÍCIA
Francisco e a Paixão
14/03/2016

Somos convidados a refletir, neste mês, a visão de São Francisco em relação à Paixão, a maneira como ele viveu este mistério de Cristo em sua vida, como ele próprio sentiu em seu corpo o mistério da Paixão. Este mistério passa pela cruz, assim, podemos dizer que a experiência mística franciscana brota diretamente do Crucificado. Abraçando a Cruz, Jesus se torna espelho do amor do Pai que doa a si mesmo.

 

A Cruz de Jesus envolve Francisco desde os primeiros momentos da conversão até quando desce do Alverne, ícone do crucificado.

 

São João Paulo II afirmou: “Na teologia da vida de Francisco de Assis, a força redentora da cruz se revela como compaixão”.  Para São Boaventura, Francisco trazia no coração o amor cheio de compaixão do Crucificado (LM 14,1). No olhar cheio de compaixão do Crucificado, Francisco encontrou a graça de assumir a humildade da cruz, que o levou a romper definitivamente com toda a maneira de viver e de ser. A humildade da cruz exigiu de Francisco uma ruptura definitiva com os falsos valores de sua sociedade.

 

Francisco e Clara viveram em sua vida a mística da COM-PAIXÃO.

 

Compaixão é a atitude central do Deus da Aliança, pois consiste em ser solidário com a causa dos pobres e oprimidos. Ao falarmos de compaixão somos levados a refletir sobre a misericórdia, que é um dom do Espírito que atinge o coração do Evangelho e nos faz entrar na intimidade trinitária como revelação máxima do amor divino.

 

Ter compaixão, misericórdia com a outra, o outro, é uma bondade essencial ao cristão, é um envolvimento do coração, uma ternura que comove e que leva à uma ação, a exemplo do próprio Deus, que no início da caminhada histórica-salvífica do povo eleito, mostrou-se cheio de compaixão-misericórdia, atitudes que perduram até hoje.

 

Sua característica mais forte é estar voltado amorosamente para o pobre, o pequeno, o excluído, o pecador e isto Deus fez de uma maneira especial na pessoa de seu filho Jesus Cristo. A compaixão é o elo que une Jesus ao Pai e ao projeto do Reino de Deus.

 

Francisco e Clara viveram a fraternidade de forma real, verdadeira, pois conseguiram, em sua mística, olhar para os irmãos e irmãs e enxergar em cada um (a), o rosto do próprio Deus. Isto só foi possível porque descobriram e entenderam a presença de Deus dentro de si mesmos.

 

Ser fraterno é comungar com a própria vida e com a vida do outro, da outra. Entenderam assim que, para haver unidade é preciso comunhão e a comunhão se dá na diversidade.

 

Francisco, na sua simplicidade, sem mesmo entender o que se passava com ele, descobre em si e nas criaturas todas, o que é ser imagem e semelhança de Deus.

 

Entende que toda pessoa nasce à imagem de Deus e que no dia-a-dia é chamada a tornar-se semelhança. Clara bebeu desta fonte. Em sua bondade e desejo de descobrir o mistério de Deus em sua vida, deixa-se encantar por Francisco e pela nova filosofia de vida que estava começando ali, naquele tempo: Deus é amor, unidade, justiça, fraternidade.

 

Em comunhão com a criação, eles descobrem no pobre, sobretudo o mais pobre de seu tempo, o leproso, a presença de um Deus até então escondido dentro da Igreja e da sociedade: Deus pobre, amigo dos pobres, compaixão e compassivo. O Deus acolhedor, que quis ser pobre entre os pobres. Francisco e Clara sentiram-se arrebatados por este Deus e trilharam o caminho na busca da santidade.

 

A descoberta de um Deus tão próximo, visível na história de seu povo, fez de Francisco e Clara pessoas melhores, fraternas, inteiras e, sobretudo, pessoas relacionais, solidárias, que desejaram para si próprios, a pobreza de Jesus Cristo, manifestada no serviço aos pobres, doentes, excluídos da sociedade de seu tempo.

 

Francisco não foi teólogo, mas um “experimentador” de Deus, com quem fez um pacto de amor. Na sua caminhada, coloca a Trindade como ponto de partida e como centro do caminho. E, neste caminho, Jesus Cristo é a plenitude da revelação do Deus Trino.

 

No crucificado, Francisco vê beleza e passa a resgatar a beleza dos pobres, acolhendo-os, mostrando que todos têm dignidade e fazendo-os acreditar nisto e lutar por ela. Neste caminho a percorrer, Francisco e Clara fazem a experiência do Deus encarnado na miséria humana, que abriu seu coração para acolher a todos: é a misericórdia de Deus e fazendo a experiência do Deus misericordioso, tornaram-se também eles misericordiosos. O olhar dos dois torna-se amoroso, como o olhar de Deus. A partir de então, são capazes de sentir compaixão, não apenas sentimento de ter o outro, a outra como “coitadinhos”, mas o sentimento de acolher, de amar e de respeitar com o coração de Deus e de seu filho Jesus Cristo.

 

A partir do encontro com Cristo na Cruz de São Damião, no qual Francisco recebeu de Deus o mandato de restaurar a Igreja, a CRUZ tomou um significado todo particular na vida do Poverello de Assis.

 

Sua devoção era tamanha, que não adotou nenhum ofício da época, mas criou um próprio, que se encontra nas Fontes Franciscanas.

 

A centralidade da Cruz também esteve presente na vida de Clara de Assis. Ela tinha a mesma devoção que Francisco a Jesus Crucificado. Aprendeu o Ofício da Paixão, composto por Francisco, e costumava recitá-lo com amor e devoção.

 

Desse modo, Francisco e Clara, ao recitarem tal Ofício, fazem memória e contemplam as diversas cenas dos mistérios da Paixão de Cristo, e neste, os demais mistérios da história da Salvação: a criação, o nascimento de Jesus, a Ressurreição.

 

No Monte Alverne Francisco vive o cume de seu itinerário. Ele, o servo sofredor, como o Cristo, faz a experiência da “noite escura”. Lá, ele perpassa por todas as vias que o seu Senhor lhe deu a caminhar. Ele contempla e é visitado pelo Senhor. Na dor da sua humanidade teme não ter respondido o amor do seu Senhor e chora pelo amor que não é amado. Ele, que foi um homem paciente e caridoso, pleno de amor feito misericórdia, ter não ser compreendido pelo seu Senhor.

 

Vive momentos de trevas e é tentado. Reza para que Deus ilumine as trevas do seu coração. Descobre que o amor de Deus por ação do seu Santo Espírito o quis e o iluminou no caminho a seguir. E assim, gratificado pela gratuidade d’Aquele que o escolheu, pede duas graças: “Sentir a mesma dor daquele que tanto ama, na hora em que está na cruz e não ter menor amor do que ele teve, por aqueles que seu Pai e nosso Pai lhe confiou quando nos enviou”. O amor nos torna igual à pessoa amada, e com Francisco não foi diferente. Graça pedida, graça alcançada. Com os estigmas o seu Senhor o abençoou e o iluminou, e ele se torna único naquele que já era único nele.

 

 

Para refletir:

- Francisco e Clara amaram o amor que não era amado. Como tem sido o meu relacionamento com este Amor?

- Francisco identificou-se de tal modo com a Paixão de Cristo, a ponto de vivê-la em seu corpo. E eu, como me identifico?

- Qual é a minha reação diante das cruzes do caminho, dos sofrimentos e ameaças da vida (minha e das irmãs/aõs)?


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