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O mundo da cultura em Paris: o Papa ensina que a paz nasce da linguagem

A visita de Leão XIV à sede da Unesco, em 25 de setembro, será uma oportunidade para retomar os laços de diálogo entre ciência e fé e entre a Igreja e os artistas. É o que relatam o Pe. Olric de Gélis, diretor do Centro de Pesquisa do "Collège des Bernardins", e Martine Sautory, coordenadora da "Galerie Saint-Séverin", expressando o desejo de uma abertura ao diálogo através da criatividade, capaz de germinar sementes de concórdia entre mundos e povos aparentemente distantes.

04.09.2026 | 8 minutos de leitura

O mundo da cultura em Paris: o Papa ensina que a paz nasce da linguagem

Sob as abóbadas cruzadas do refeitório do Collège des Bernardins, a poucos passos do Sena e da Île de la Cité, onde se encontra a Notre-Dame, ainda ressoa o eco do século em que esse colégio cisterciense foi erguido: o século XIII, a época da grande teologia escolar parisiense, de Tomás de Aquino a Boaventura, passando por Alberto Magno e Alexandre de Hales, em diálogo animado com a filosofia aristotélica e árabe, sem esquecer a tradição do pensamento judaico, com figuras como Moisés Maimônides e Rashi. É uma efervescência espiritual que ainda se pode sentir de perto entre estas paredes e que, espera-se, possa ser reavivada pela chegada do Papa Leão XIV a Paris, em visita à sede da Unesco em 25 de setembro: palavras capazes de gerar outras, uma linguagem precisa e aberta ao mesmo tempo, que está na base da cultura, da arte e, hoje mais do que nunca, da paz entre os povos. Esses são os votos coletados pela mídia vaticana junto a duas figuras do mundo cultural parisiense: o Pe. Olric de Gélis, diretor do Centro de Pesquisa do Collège des Bernardins, e Martine Sautory, coordenadora da Galerie Saint-Séverin.

 

Collège des Bernardins: arte, diálogo e pesquisa

 

O nome do cardeal Jean-Marie Lustiger, arcebispo de Paris de 31 de janeiro de 1981 a 11 de fevereiro de 2005, é o fio condutor que une essas duas realidades, ambas empenhadas em promover o diálogo entre ciência e fé, assim como entre a Igreja e os artistas não crentes. No Collège, o impulso dado pelo cardeal foi o de trabalhar com a Palavra de Deus sem nunca perder de vista as questões dos homens e das mulheres de sua época, explica o Pe. de Gélis. Um desenvolvimento que se ramificou em três direções: a produção artística, inclusive contemporânea, outro ponto de contato com a Galerie Saint-Séverin; os encontros e debates em que a sabedoria cristã se confronta com as grandes questões do presente, sobretudo a guerra e o diálogo inter-religioso; e, por fim, a iniciativa pela qual o religioso é hoje responsável: o polo de pesquisa. Uma entidade de amplo alcance, que trabalha em ciclos plurianuais, multidisciplinares e, sobretudo, pluralistas, capazes de produzir resultados de alto nível científico e cultural: “entre os participantes há teólogos, sacerdotes e leigos cristãos, mas cerca de 70% a 80% dos pesquisadores que colaboram conosco não são cristãos. Há muçulmanos, judeus, agnósticos e até mesmo pessoas que professam um ateísmo autêntico”. Para utilizar os documentos do Concílio Vaticano II, inspirando-se nos ciclos de catequese de Leão XIV, o trabalho do Centro de Pesquisa tem suas raízes na Dei Verbum, no que diz respeito à formação na Palavra de Deus, e na Gaudium et spes, para o diálogo com o mundo contemporâneo.

 

O progresso na alfabetização

 

Ao falar justamente da chegada do Papa, o Pe. de Gélis diz acreditar firmemente na “liberdade dos Pontífices”: a emancipação de Bento XVI ao fazer dialogar a sabedoria cristã com as questões do mundo e a ousadia de Francisco. Uma ousadia que ele também vislumbra no “coração” de Leão, no sentido bíblico do termo: uma inteligência que tem a peito o logos e “a atenção que devemos dedicar a um vocabulário e a uma linguagem que sejam, ao mesmo tempo, precisos e abertos”, capazes de abordar temas como a paz e a cultura. O religioso lembra outro Papa, São Paulo VI, que, justamente em uma mensagem ao então diretor-geral da Unesco, Amadou Mahrar M’Bow, datada de 28 de agosto de 1975, falou da importância da alfabetização como “condição fundamental de todo desenvolvimento humano autêntico e de todo processo econômico e social”, especialmente no que diz respeito aos trabalhadores migrantes. Aliás, acrescenta o Pe. de Gélis, “uma das intuições mais profundas contidas nos textos fundadores da Unesco é esta: as guerras nascem na mente dos homens, mas é na mente dos homens que também devem nascer as defesas da paz”.

 

Além do mero positivismo

 

Foi justamente no Collège des Bernardins, por outro lado, que o Papa Bento XVI proferiu um discurso ao mundo cultural parisiense sobre as raízes monásticas da Europa e sobre a busca de Deus, o quaerere Deum, afirmando que “uma cultura meramente positivista, que relegasse para o âmbito subjetivo, como não científica, a pergunta sobre Deus, seria a capitulação da razão”. Uma reflexão que o Pe. de Gélis vê confirmada a cada dia: “a mera positividade dos resultados científicos, por mais fundamental que seja, não basta ao espírito humano. Vemos isso na pesquisa contemporânea: os homens e mulheres de hoje buscam respostas mais profundas para as perguntas que se fazem”. Um exemplo por excelência é a ecologia, questão que envolve as ciências, mas também reflexões históricas, filosóficas e culturais sobre a “reorganização de nossas sociedades, a mudança de nossos estilos de vida e, em última instância, o próprio sentido de nossa existência”.

 

A relação entre homem e tecnologia digital

 

O trabalho do polo de pesquisa também se concentra no tema central da primeira encíclica de Leão XIV, Magnifica humanitas, ou seja, a Inteligência Artificial. Não por acaso, a professora Gemma Serrano, codiretora do departamento de pesquisa e diretora do segundo ciclo da Faculdade Notre-Dame do Collège, além de codiretora do departamento “Humanismo Digital”, integrou a delegação que acompanhou o presidente francês Emmanuel Macron em sua visita ao Vaticano, no último dia 10 de abril. A posição compartilhada é clara: “hoje, a tecnologia se desenvolve e se expande de forma massiva por meio da Inteligência Artificial. Mas a questão antropológica que a IA levanta, de maneira muito precisa, diz respeito justamente à relação do homem com a tecnologia, em particular com a tecnologia digital”. Também neste caso, o grupo de pesquisa mantém-se pluralista: há teólogos, como Serrano, mas a maioria dos pesquisadores não é cristã.

 

Contribuir para a paz

 

Há ainda uma última questão, mais delicada do que nunca nestes tempos: o diálogo judaico-cristão. A pesquisa do Collège visa uma “resolução integral” do conflito em curso no Oriente Médio, promovida por meio de encontros de intercâmbio sobre os ensinamentos das duas confissões. “O caminho percorrido antes da fase atual do conflito, e em particular da guerra em Gaza, certamente contribuiu para que o diálogo continuasse até hoje”. Um diálogo em evolução, que permitiu preservar relações autênticas e valiosas. “Visto que Jesus é o Príncipe da Paz, é totalmente legítimo que nós, cristãos, busquemos, na medida de nossas possibilidades, contribuir para a resolução dos conflitos”.

 

Galerie Saint-Séverin: a arte contemporânea encontra a fé

 

Seguindo ao longo do Sena, com o olhar ainda repleto das torres da Notre-Dame, chega-se a um lugar que, apesar da proximidade com as pontas góticas da paróquia de mesmo nome, poderia parecer a vitrine cintilante de uma boutique parisiense. Trata-se, na verdade, da Galerie Saint-Séverin, o menor espaço expositivo da capital francesa: uma única placa de vidro separa quem passeia pelas ruas das obras expostas, e, dentro daquele pequeno espaço, fundem-se dois mundos aparentemente opostos: a fé cristã milenar e a arte contemporânea. É nesse ponto que insiste Martine Sautory, coordenadora do espaço expositivo. Na época da sua fundação, na década de 1990, por iniciativa do cardeal Lustiger, “havia algo mais imediato e evidente: mais praticantes, mais pessoas que conheciam a religião e a viviam”. Hoje, porém, a espiritualidade se tornou mais ampla, abrindo-se para novas formas artísticas.

 

Um ponto de referência minúsculo para os fiéis

 

A galeria é mantida pela associação Arts, Culture et Foi, ligada à diocese de Paris, mas a escolha das obras a serem expostas fica a cargo de curadores externos. O que permanece constante é a vontade de manter vivo o “diálogo entre a Igreja e os artistas”, acolhendo também vozes de outras confissões religiosas: “o rosto de uma comunidade acolhedora”, o que, no caso da Galerie, se traduz em visões mais pessoais da fé, artisticamente falando, sem perder o vínculo com os momentos marcados pela liturgia, como o Natal ou a Páscoa. Pois os fiéis precisam da arte para se aproximarem da fé: o belo atrai, e Sautory está ciente disso. “Já me aconteceu encontrar adultos que me contaram que, quando jovens, nos anos 90, talvez já fossem crentes, a Galerie representava para eles um ponto de referência. Havia, por exemplo, estudantes de Belas Artes, e isso foi algo que me surpreendeu muito: descobrir que há pessoas que permaneceram fiéis a esse espaço justamente porque o consideram essencial em sua relação com a Igreja”.

 

Pó e humanidade

 

Se pudesse mostrar uma obra em exposição ao Pontífice, a curadora escolheria um lobo feito inteiramente de pó, do artista Lionel Sabaté, exibido durante a Quaresma como uma referência ao homem que volta a ser pó e a São Francisco. “Sabaté coleta o pó nas estações do metrô. É um material humilde. Quando fala sobre ela, diz que é composta por todos nós, pois todos passamos pelo metrô e todos deixamos, de alguma forma, pequenos rastros, pequenas partículas de poeira”. Daqui, a estação Cluny-La Sorbonne fica a cinco minutos a pé: passa-se ao lado de turistas, estudantes, pessoas em situação de rua, todos carregando consigo sua própria poeira. E todos, cada um à sua maneira, evocam os gemidos mais profundos da fé.

 

Fonte: Vatican News

 
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